Ilha de Goree
Cheguei a Dakar incluído num grupo de trabalho e em avião fretado. Fomos instalados no Hotel Meridien que agora se chama King Fahd Palace Hotel. A caravana e organização do último Paris-Dakar, tinham o quartel general montado nesse hotel, pois o rali começava na semana seguinte. No parque de estacionamento do Hotel não faltavam as máquinas do todo o terreno.
O Hotel tinha um excelente aspeto para um hotel de 5 estrelas. Fiz o check-in e fui para o meu quarto, espaçoso e normalíssimo para a categoria deste hotel. No quarto de banho tinha tudo o que deveria ter. Reparei na banheira e assustei-me: era branca do cimo até meio e para baixo era de uma cor de óxido ferroso, numa linha perfeitamente delineada. Água ferrosa pensei e passei o dedo para ver. Saía com o dedo, era sujidade. Lavei a banheira, não morri por isso, afinal estava em África outra vez e já sabia o que a casa gasta.
Jantámos no Hotel. Depois de jantar dirigimo-nos ao bar onde um artista tocava música local. Até aqui tudo bem. Estranho foi ver um empregado de bar no balcão a lavar os copos num alguidar de lavar roupa e a água da cor de café. Ao lado, um colega limpava lenta, lentamente, os copos com um lençol de cama todo esticado no balcão.
Bom, fui-me deitar sem beber nada, até porque estava cansado. Abri a cama, os lençóis estavam limpos e amarelos, mas eram ásperos como lixa. Já tinha experimentado pior no deserto do Saara. Adormeci profundamente e deveria estar a sonhar, quando sou acordado pelo som de batidas na porta do quarto. Estranho, será que algum colega precisava de ajuda? Perguntei quem era e nada. Abri. Duas moças Senegalesas, completamente embriagadas ou drogadas com um aspeto de terrivelmente doentes a quererem vender-me os seus preciosos serviços. Disse-lhes que não precisava dos serviços delas, mas eram muito insistentes e só as demovi alterando o tom de voz e aí, com medo que alguém aparecesse, fugiram pelo corredor.
No dia seguinte vi que era normal as meninas habitarem o Hotel e passarem a noite nos sofás espalhados pelos pisos, não fosse alguém precisar de uma urgência.
Ilha de Goree
Ilha de Goree, Casa dos Escravos (Maison des Esclaves) A Casa dos Escravos e sua Porta do Não Retorno constituem um museu e memorial dedicados à história do comércio de escravos na ilha de Gorée. A ilha de Goree fica a 3 km da costa de Dakar e existe um barco que faz a travessia várias vezes ao dia. É talvez o monumento mais visitado de Dakar. Património Mundial da Humanidade é visita obrigatória. O museu foi criado em 1962 por Boubacar Joseph Ndiaye, para preservar as memórias da escravidão na África.
O Sr. Boubacar Joseph Ndiaye apresentou-nos o espaço e fez questão de recriar nas nossas mentes, o que os escravos sofriam acorrentados a bolas de ferro de 2kg, nesse entreposto esclavagista, às mãos de um povo europeu, Portugueses. Repetiu tantas vezes Portugueses, talvez por saber que éramos portugueses, que o ambiente se tornou constrangedor. Tudo começou com Dinis Dias e Diogo Cão, mas essa história não é para aqui chamada pois não é a minha história. Antes de me ir embora ainda tive tempo de cumprimentar o Sr. Boubacar Joseph Ndiaye, felicitá-lo pela excelente apresentação e dar-lhe uma informação que talvez ele não soubesse: sem querer limpar a história Portuguesa, talvez referir que Portugal foi o segundo País do mundo (a seguir à Dinamarca) a abolir a escravatura (pelo menos no papel e não para o Brasil). O Sr. Boubacar Joseph Ndiaye assegurou-me que estava ciente disso. Eu vim-me embora sem ter a certeza disso.
Não vou descrever a casa dos escravos. É preciso lá ir para ver. As correntes ainda estão lá (um bocado enferrujadas).
O trânsito em Dakar
Uma das noites fomos jantar a um excelente restaurante. Tinha uma luz e decoração exótica, até tinha palco. O jantar prolongou-se um pouco pois éramos um grupo grande e eis que começam a entrar meninas quase nuas com um cheiro a patchouli e a distribuir beijos para a esquerda e para a direita. Quase parecia um milagre, mas fomos posteriormente informados que afinal não era um restaurante, mas um clube noturno que tinha cedido a sala ao restaurante, devido ao facto de sermos um grupo grande e as meninas estavam lá fora à espera que saíssemos. Como o jantar se atrasou tiveram que as deixar entrar. E assim se explica a transformação de um restaurante num harém.
Brinquedos (se houvesse lá Toys R Us estes já tinham desaparecido)
Visitei o lago Rosa e a aldeia Niaga em dia de nevoeiro e chuva de molha tolos. Fui transportado em camião do exército. No lago que no fundo é uma exploração de sal, tive a oportunidade de conduzir uma moto 4, a cair de podre. O lago não tem nada de especial. Não vi flamingos. Niaga é uma aldeia de palhotas sem saneamento e com um cheiro caraterístico, que eu já conhecia das aldeias do Alto Atlas. Vendiam essencialmente artesanato e crianças. Foi-me oferecido uma criança de 10 anos por 10$, sensivelmente o mesmo preço que me ofereceram em Olinda, no Brasil. O esquema é sempre o mesmo. A criança mais nova é oferecida por uma criança mais velha, pois os pais ou (ir)responsáveis, sabem que com as crianças não vamos ter nenhuma reação mais violenta. O mesmo pode não acontecer se for um adulto a negociar a criança. Lembrei-me do Sr. Boubacar Joseph Ndiaye, que tanto se insurgiu contra a escravatura dos Portugueses no seu discurso e já não podia fazer nada para mudar a história, talvez pudesse fazer alguma coisa por aquelas crianças, pois a escravatura tem muitas faces. Voltei as costas e fui-me embora. Já conhecia o cheiro, o negócio, o artesanato e não podia fazer nada.
Vila das Artes
A ver em Dakar:
- Ilha de Goree e a casa dos escravos
- Lago Rosa e aldeia Niaga
- Grande mesquita de Dakar
- IFAN museu das artes africanas
- Galeria Nacional de Artes
- Mercado de Sandaga
- Mercado Kermel
- Mercado do peixe
Junto ao mercado do peixe
Regressamos também num avião fretado. O voo estava marcado para as 23:00h e só embarcamos às 3:00h da manhã, depois de termos negociado durante 2h a nossa partida. Nada que já não tivesse acontecido noutras paragens, bem mais desenvolvidas.
Transporte de animais
Dar trabalho a quem precisa
Mercado Sandaga
Neste mercado pode encontrar de tudo um pouco. Até as coisas mais improváveis neste recanto de África. Atenção à sua bolsa e carteira.
Hotel
Hotel
Arredores de Dakar
Arredores de Dakar
Lago Rosa
Lago Rosa
Aldeia junto ao lago Rosa (Niaga)
Aldeia junto ao lago Rosa (Niaga)
Hotel do Paris-Dakar
Hotel do Paris-Dakar
Hotel Meridien
Gare marítima
Gare marítima













...otimo artigo.... desconhecia a veia de reportagem!!!!
ResponderEliminarObrigado Tereza. Bjos.
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